ATITUDES DE CONSUMIDORES FRENTE A NOVAS TECNOLOGIAS
(Tecnofobia)

ALIPIO RAMOS VEIGA NETO
Professor Doutor

 

Direitos Autorais (copyright):

Este trabalho, na sua íntegra, ou partes, podem ser reproduzidas desde que acompanhada do nome do Autor e devidamente citada a fonte. Uma cópia do material deverá ser enviada para o Autor deste trabalho.

 

Dissertação de Mestrado apresentada ao Departamento de Pós-Graduação em Psicologia da PUCCAMP como parte das exigências para a obtenção do título de Mestre em Psicologia. Campinas, Dezembro - 1998

Contatos com o Autor podem ser realizados pelo

e-mail: alipio.veiga@uol.com.br

 

Área de Concentração: Psicologia Escolar Orientador: Dr. Samuel Pfromm Netto.

Resumo

Veiga Neto, A.R. (1999) Atitudes de consumidores frente a novas tecnologias. Dissertação de Mestrado, Campinas, SP, Brasil, PUC-Campinas

 

Atualmente, nossa sociedade depende, cada vez mais, de computadores e novos equipamentos tecnológicos que têm auxiliado os indivíduos em seu dia a dia. Porém, existe ainda um grande número de pessoas que apresentam dificuldades em adequar-se às novas tecnologias, isto é, com tecnofobia. Elas sentem um grande desconforto e até aversão por aparelhos e equipamentos tecnológicos, tendendo a evitar a interação com computadores. Na área educacional, grande parte das dificuldades de implementação de computadores em escolas públicas deve-se à resistência de professores na utilização de novas tecnologias. Os objetivos desta pesquisa foram detectar a existência de uma relação entre a formação do indivíduo e uma maior ou menor resistência às novas tecnologias, bem como levantar possíveis diferenças quanto ao nível de tecnofobia entre consumidores de produtos de informática e estudantes de educação. Uma amostra de 50 sujeitos divididos em dois grupos, 25 estudantes de pedagogia e 25 consumidores de informática, responderam a um questionário elaborado pelo Autor com um total de 22 questões, que serviram para determinar como os sujeitos se sentem quando precisam utilizar computadores ou produtos tecnológicos; para verificar quais as formas utilizadas na aprendizagem de informática; os contatos que tiveram com equipamentos tecnológicos na escola; e suas atitudes como consumidores frente a novos lançamentos tecnológicos. Os resultados apresentados indicaram, de modo geral, que os estudantes apresentam níveis de tecnofobia não muito superiores aos dos consumidores porém, enquanto grupo, suas atitudes são conservadoras em relação à novas tecnologias, levando-os a manterem-se afastados destas.

Palavras-chave: Ciberfobia; Atitudes Frente; VALS.

APRESENTAÇÃO

Nos dias de hoje, faz-se necessária cada vez mais a utilização de equipamentos tecnológicos para a realização de atividades corriqueiras.

Tarefas profissionais que requeiram a redação de documentos, operações bancárias informatizadas, comunicação à distância, até mesmo o desfrute de filmes nas já tradicionais fitas de vídeo, ou agora também nos recentemente lançados aparelhos de "DVD", exigem das pessoas uma familiaridade e, por que não dizer, uma certa afinidade emocional com toda essa aparelhagem adequada e necessária para o êxito na execução das mais simples tarefas do dia a dia.

Pela vivência profissional do Autor como empresário no setor de informática e consultor de Marketing Internacional, além de profissional da área de educação, foi possível observar que muitas pessoas acabam adquirindo equipamentos de última geração, por simples influência da mídia ou mesmo por necessidade de demonstração de status social.

Os consumidores são em grande parte pessoas de bom nível social e intelectual, com boa formação escolar. No entanto, muitos deles apresentam dificuldades que variam desde a simples operação do equipamento até a compreensão dos processos básicos de funcionamento de um programa de computador, também conhecido pela palavra de origem inglesa "software".

Pensando-se nisso, pode-se perguntar se essas pessoas também apresentariam as mesmas dificuldades para lidarem com os caixas automáticos dos bancos, com a programação de eletrodomésticos como videocassetes e fornos de microondas, ou até mesmo com telefones celulares.

A maior dúvida, no entanto, parece estar no porquê de certas pessoas, adultos formados em nível superior e ocupando cargos que exijam competência intelectual, apresentarem resistência quanto à utilização produtos tecnológicos em sua vida profissional e pessoal. Quais os fatores psicológicos que estariam presentes a ponto de as impedirem quanto à realização de tarefas que seriam melhor executadas, por exemplo, com o auxilio da informática? Qual a interferência dos processos educativos, a que se submeteram, na utilização de novas tecnologias para a melhoria de sua vida profissional?

Estas são algumas das respostas que se pretendeu alcançar com este estudo, a fim de analisar as possíveis implicações pessoais, profissionais e sociais das atitudes de consumidores frente às novas tecnologias, particularmente no que respeita a uma dificuldade denominada tecnofobia em adultos.

Como será visto mais adiante, com base na bibliografia disponível, o termo "tecnofobia", apesar de sua clara conotação clínica, tem sido aplicado mais genericamente para designar indivíduos que demonstram resistência em diversos níveis na adoção e utilização de novos aparelhos e equipamentos em geral. A literatura especializada inclui, igualmente, referências à ansiedade na utilização de computadores na educação.

Aparentemente, pelo que foi possível levantar-se até agora, praticamente não existem registros sistemáticos sobre o assunto na literatura científica brasileira, psicológica ou não, exceto por algumas alusões, muito genéricas, em jornais e revistas de informática. O Autor está seguro de que muito há para ser pesquisado sobre o assunto, principalmente no ambiente brasileiro, uma vez que a importância do desenvolvimento tecnológico e cientifico de uma nação está diretamente relacionada ao seu desenvolvimento econômico e social.

Muitas vezes, novos produtos, serviços ou tecnologias são apresentados sem uma maior preocupação com as conseqüências para o consumidor. Alguns desses consumidores se adaptam rapidamente às mudanças. Porém, parece existir uma parcela da população que experimenta dificuldades, em níveis variados, para se adequar ou para conviver com um determinado produto inovador ou uma nova tecnologia, chegando até mesmo a evitá-los.

A psicologia brasileira, de modo geral, não tem dado a devida atenção à multiplicidade de problemas, aspectos e perspectivas da Psicologia do Consumidor que merecem ser pesquisados e levados em conta em nosso país e que são relevantes nos mais diversos contextos, inclusive o da Psicologia Escolar. Neste último caso, a contribuição de Vectore (1992), ao que tudo indica, perdura como única incursão da pesquisa psicológica no país que integra a psicologia escolar com os conceitos, estratégias e procedimentos característicos da Psicologia do Consumidor.

O enfoque da autora citada incide no processo decisório de pais frente ao problema da escolha de uma pré-escola para seus filhos. Não foram localizadas na bibliografia de psicologia escolar outros contribuições apoiadas na Psicologia do Consumidor.

A presente contribuição se apoia na extensa base bibliográfica que fez com que a Psicologia do Consumidor, apesar de ser relativamente recente, se impusesse como uma das vertentes mais ativas de teorização e pesquisa psicológica nestes últimos 40 anos. Conforme registra Kassarjian (1982), os termos "Psicologia do Consumidor" e "comportamento do consumidor" sugiram como tópico específico pela primeira vez no volume de 1965 do Annual Review of Psychology. Daí em diante, a expansão da literatura a esse respeito foi muito expressiva, culminando com a criação da "Society of Consumer Psychology" como uma das divisões da "American Psychological Association".

No contexto da atual Psicologia Escolar, as contribuições fundamentadas na Psicologia do Consumidor são particularmente relevantes no que se refere a itens como o melhor conhecimento da clientela que se vale das escolas (estudantes e seus pais); aos recursos humanos e materiais que as escolas dispõem para realizar suas funções; às imagens que as escolas suscitam nas pessoas; à utilização do psicólogo escolar como um componente que valoriza a escolha aos olhos de sua clientela; à condição da escola como agencia que orienta, forma e esclarece seus alunos na área de consumo, para que se tornem consumidores conscientes e inteligentes; e o preparo do psicólogo escolar como profissional liberal que oferece seus serviços a clientes.

Hoje em dia é pacífico que a Psicologia do Consumidor, em qualquer um dos contextos em que vem sendo mobilizada, interessa tanto às organizações e pessoas que fornecem produtos e serviços à sociedade, como aos que se ocupam da defesa do consumidor.

O presente trabalho abordou uma provável relação entre alguns aspectos psicológicos dos consumidores, com sua maior ou menor resistência às novas tecnologias, particularmente no que se refere às suas atitudes, seus valores, seus estilos de vida, suas motivações, preferências e aversões.

Finalmente aplicou-se um instrumento a fim de averiguar os níveis de relação entre a maior ou menor adaptabilidade à novas tecnologias e certas características psicológicas de cada sujeito.

Na seqüência, apresentam-se a descrição dos resultados, a análise de dados, as conclusões do trabalho e os pós-textos convencionais.

CAPÍTULO I

PSICOLOGIA DO CONSUMIDOR

Atualmente, os estudos relacionados com o comportamento do indivíduo enquanto consumidor de produtos industrializados parecem estar concentrados em uma das áreas da Psicologia que mais vem se expandindo nas últimas décadas, denominada Psicologia do Consumidor.

Porém os estudos e pesquisas estão fortemente concentrados nos processos de escolha/decisão do consumidor, levantamentos de opiniões dos consumidores, avaliação de atitudes e motivação, segmentação psicológica de mercado, teste de produtos, avaliação da eficiência da publicidade, análise do comportamento do consumidor em situações naturais de consumo (Pfromm Netto, 1990; Jacoby, Johar, e Morrin, 1998).

No passado, a área mais ampla de conhecimentos e práticas de natureza psicológicas denominada Psicologia Organizacional (ou Psicologia Organizacional e Industrial) incluía contribuições relativas à psicologia do consumidor. Com o passar do tempo, entretanto, os campos de investigação e aplicação da Psicologia Organizacional expandiram-se tanto que já se pode concebê-los como segmentos independentes, tanto como áreas de atuação profissional do psicólogo, como disciplinas acadêmicas e campos de pesquisa. Isto ocorreu no caso da Psicologia do Consumidor. Este é um fato que vem sendo reconhecido de maneira muito limitada fora dos países mais desenvolvidos, principalmente no Brasil.

Na atualidade, destaca-se a atuação da "Society of Consumer Psychology" (SCP), como uma das mais ativas e vitais das várias divisões da "American Psychological Association" (APA Division 23). Poucas divisões da "APA" possuem publicações próprias de tanto sucesso como o "Journal of Consumer Psychology" e o periódico "Advertising and Consumer Psychology Series". Essa sociedade promove dois congressos anuais, com participações e repercussões internacionais. Toda essa atuação tem impressionado os executivos da presidência da APA (Kardes, 1997). Além disso, os volumes do Annual Review of Psychology vem publicando regularmente, nos últimos anos, uma revisão periódica da literatura psicológica de natureza científica sobre Psicologia do Consumidor (Jacoby, Johar e Morrin, 1998)

Psicologia do Consumidor é uma área de atuação relativamente nova, porém seu futuro é bastante promissor. Muitas universidades norte-americanas vêm oferecendo programas de doutoramento em Psicologia do Consumidor (Ph.D. programs), sendo o campo de contribuição desses profissionais muito amplo. Várias são suas áreas de atuação, tais como pesquisas sobre respostas de crianças ao apelo publicitário, influência da televisão em crianças, estudos sobre mulheres que pararam de consumir e oferecer carne às suas famílias, acompanhamento em litígios judiciais na área de consumo, pesquisas sobre a influência de determinados produtos em culturas diferentes etc. (Haugtvedt, 1997).

Um dos fatores que estariam colocando o Brasil em uma posição de atraso nessa área da psicologia seria devido, basicamente, à pouca flexibilidade dos currículos e ao desconhecimento dos recentes avanços no campo de atuação da psicologia, como a Psicologia do Consumidor, ou mesmo a Psicologia econômica, não obstante a importância destas nas áreas de consumo, bem estar e qualidade de vida.

PSICOLOGIA DO CONSUMIDOR E MARKETING

Não tem sido usual que as obras a respeito de marketing, notadamente no caso das que são elaboradas no Brasil, reflitam o "estado da arte" da teorização e da pesquisa psicológica. A exceção ocorre por conta da literatura especializada produzida no exterior, particularmente na década atual.

Entre as áreas da psicologia tradicionalmente incluídas na maioria das publicações especializadas de marketing é freqüente a presença de contribuições ligadas a motivações e personalidade, bem como às teorias neo-freudianas e teorias do traço. Esses conhecimentos têm sido aplicados tanto na formatação de produtos como no planejamento da publicidade (Wilkie,1994). Outra linha tradicional de contribuição em estudos de psicologia do consumidor, que se situa no passado mais distante da psicologia, tem a ver com os trabalhos da escola gestaltista, que ainda é utilizada por profissionais de publicidade e marketing, para, através da organização, categorização e inferências, traçarem suas estratégias de marketing, tais como decisões de produto, localização, preço e propaganda (Palmer, 1984; Mowen, 1987). Acham-se, no entanto, ausentes nessa literatura muitos dos mais significativos desenvolvimentos do conhecimento psicológico nas últimas décadas, que se inserem numa visão contemporânea da psicologia.

CONSIDERAÇÕES ÉTICAS

Percebe-se que nem sempre os conhecimentos sobre o comportamento do consumidor são utilizados pelos que deles se valem com uma clara consciência do seu alcance, limitações, problemas de natureza ética e senso de responsabilidade social. Há até casos extremos em que empresas parecem não levar em conta que o lançamento de um novo produto pode ser seguido de sentimentos de decepção, frustração e incapacidade nas pessoas. Parte do problema parece originar-se de uma hipertrofia da necessidade de vender a todo custo, não importa o que, numa versão perversa da noção segundo a qual o que importa é como se podem utilizar determinados comportamentos psicológicos para aumentar as vendas, pois "posicionar um produto significa associá-lo a uma série de atributos (qualidade, vantagens, forma de uso, apresentação, preço, imagem publicitária) que façam com que os consumidores percebam esse produto como o mais indicado para atender às suas necessidades" (Gracioso, 1990; p.91)

Levitt (1986) afirma que a "imaginação de marketing" distingue-se das outras formas de imaginação pela capacidade especial que tem de entender clientes e seus problemas, e pelos meios de empolgar sua atenção e seus hábitos. Essa "imaginação de marketing" pode, no entanto, assumir características desastrosas para o indivíduo e a sociedade se não for fundamentada num alto senso ético e de respeito ao ser humano, aos seus direitos e à sua dignidade.

Comportamentos pouco éticos ou objetáveis de empresários e profissionais de marketing contribuem ainda mais para que o consumidor se posicione aversivamente em relação a novos lançamentos tecnológicos. Numa pesquisa de opinião pública, 75% dos sujeitos que manifestaram sua opinião acreditavam que os comerciais de televisão usavam argumentos falsos e, quanto mais alto foi o nível de instrução da pessoa entrevistada, também maior foi a probabilidade de que assim acreditasse. Isso faz pensar que, aparentemente, a maioria das pessoas acredita que seu ceticismo as imuniza de tais influências (Bem,1973).

Um dos mais recentes desenvolvimentos na área de marketing diz respeito ao Marketing Societal (Kotler, 1997), que procura ampliar a preocupação do pós-venda para além do atendimento das necessidades imediatas do consumidor. O surgimento dessa orientação estratégica aconteceu em contrapartida a uma evolução no comportamento de consumidores, que passaram a se questionar sobre as conseqüências de um "consumismo" descontrolado e inconseqüente e, preocupadas com a manutenção da vida no planeta, passaram a procurar produtos considerados ambientalmente saudáveis, rejeitando aqueles que não oferecem essa garantia. A esse comportamento deu-se o nome de "consumerismo" (Kotler, 1992).

Especialistas de Marketing, a fim de adequar as organizações a essa nova atitude de consumidores, sugeriram estratégias com maior preocupação ética, levando em consideração todas as conseqüências, diretas e indiretas, ocasionadas pela produção, utilização e reciclagem das sobras dos novos produtos lançados no mercado.

Lamentavelmente, muito poucas empresas e organizações têm sequer ciência da existência desses estudos e orientações estratégicas e, quando os levam em consideração em seu planejamento estratégico, o fazem de forma menor, uma vez que é pequeno o número de consumidores que demonstram preocupação em relação a itens hoje em dia bastante valorizados em escala mundial, como a ecologia, a manutenção do meio ambiente, reciclagem de lixo, reaproveitamento de materiais etc.

CAPÍTULO II

TECNOFOBIA

Deslocando o enfoque da questão para o lado do consumidor, percebem-se alguns problemas de adaptação e aceitação no que diz respeito a produtos tecnológicos. Novas tecnologias têm auxiliado os indivíduos, aumentando sua expectativa de vida, ampliando e facilitando sua expressão artística, proporcionando prazeres em diversas diversões e passatempos, facilitando as comunicações e liberando os profissionais de vários tipos de trabalhos perigosos ou repetitivos. Porém, a tecnologia também pode produzir tensões sociais e psicológicas que complicam a vida (Pytlik, Lauda e Johnson, 1983).

Cada vez mais nossa sociedade vê-se dependente de computadores e outros equipamentos tecnológicos para praticamente tudo, porém existe ainda um número significativamente grande de pessoas que sentem um grande desconforto e chegam até mesmo a ter, em determinados níveis, aversão por essas máquinas.

Sabbatini (1996), no site da Internet conhecido como Hospital Virtual, especificamente na área de informática na medicina, tem contribuído para esse assunto, e assim também, através de publicações em jornais. Segundo as palavras desse autor, "essas pessoas sofrem de uma forma de um medo irracional denominado ciberfobia. A American Psychological Association incluiu recentemente essa fobia em seu catálogo oficial de diagnósticos psicológicos, e até já existe tratamento padronizado para ela". Tendo em vista essa ponderação, o Autor realizou uma busca no DSM IV (American Psychiatric Association,1995), não tendo, no entanto, encontrado os termos "tecnofobia" ou "ciberfobia", como sugere Sabbatini, porém dentro da classificação dos transtornos de ansiedade, essas situações poderiam estar relacionadas com as fobias específicas ou mesmo as fobias sociais. Tampouco a última edição do Thesaurus da APA (1994) registra os termos "technophobia" e "cyberphobia".

Ainda de acordo com Sabbatini (op.cit.), uma pessoa com ciberfobia não tem apenas medo ou aversão a computadores. Tem um medo de maior amplitude, que pode chegar a estender-se à utilização de outros equipamentos. Pode não conseguir utilizar um controle remoto, ter dificuldades com os botões do telefone celular, e até mesmo se alterar emocionalmente se necessita programar uma gravação com o videocassete. Confrontada com um teclado qualquer, como no caixa do banco, pode até esquecer ou adiar o que tinha a fazer.

Nesses casos, o computador assume uma posição de destaque a ponto de ser considerado o pior dos equipamentos. Essas pessoas sentem medo de mexer no teclado e eventualmente provocar algum dano irreversível. Aparentemente não compreendem o que está aparecendo na tela, e não conseguem, ou mesmo não querem, aprender a utilizar um programa simples.

Dessa forma, a ciberfobia poderia ser um aspecto particular de um grupo de fobias maior, chamado de tecnofobia, ou seja, sintomas de ansiedade e inferioridade perante o grupo social quando da necessidade de se utilizar alta tecnologia.

É um distúrbio ou tipo de dificuldade que deve ser objeto de maiores estudos, pois provoca sofrimento e sentimentos de incapacidade em quem o experimenta, uma vez que hoje em dia é praticamente impossível deixar de conviver com os computadores e outros produtos inteligentes, que incluem processadores em seus circuitos.

Várias investigações têm sido conduzidas fora do Brasil no sentido de se conhecer os níveis de tecnofobia e suas conseqüências. Tem-se por exemplo a de Rosen, Sears e Weil (1987) que investigaram o impacto das reações negativas em relação à tecnologia e encontraram que tecnofóbicos tendem a evitar a interação com computadores. Com base nos resultados desse estudo e do estudo de Weil, Rosen e Wugalter (1990) sobre as origens da tecnofobia, pode-se supor que as reações psicológicas à tecnologia compelem adultos e adolescentes a evitarem computadores e outras formas de tecnologia.

Em levantamentos realizados pelo Autor, foram detectados poucos trabalhos nessa área, mas notadamente concentrados nos Estados Unidos da América, em que pesquisadores com melhores condições de financiamento trabalham com informações coletadas em inúmeros países. Um desses trabalhos (Weil e Rosen, 1995), resumido a seguir, apresenta dados sumamente importantes que incluem vários países, lamentavelmente excluindo o Brasil.

Durante um período de dois anos, entre 1992 e 1994, foram coletadas informações de 3392 estudantes universitários de primeiro ano em 38 universidades de 23 países, sobre seus níveis de sofisticação tecnológica e nível de tecnofobia. A sofisticação tecnológica foi medida em função da utilização, pelos sujeitos, de aparelhos consumo geral (videocassete, forno de microondas, caixa automático de banco, computadores e vídeo games), bem como pela utilização de computadores em educação (uso em sala de aula, processador de textos e noções de programação). Nesse estudo a tecnofobia foi avaliada utilizando-se instrumentos que mediam a ansiedade, a cognição e atitudes dos sujeitos em relação ao computador.

Um grupo de países que incluíram Indonésia, Polônia, Índia, Quênia, Arábia Saudita, Japão, México e Tailândia apresentaram altas percentagens de estudantes com tecnofobia (acima de 50%), em contraste a outros cinco países, EUA, Iugoslávia, Croácia, Singapura, Israel e Hungria, que apresentaram menos de 30% de tecnofóbicos. O grupo remanescente, formado por sujeitos da Espanha, Irlanda, Itália, Indonésia, Grécia, Alemanha, Egito, Checoslováquia, Bélgica, Austrália e Argentina, posicionaram-se entre os dois extremos (Weil e Rosen, 1995).

Outros trabalhos demostram que não são todos os consumidores que se precipitam na aquisição de novíssimos lançamentos tecnológicos. Higgins e Shanklin (1992) examinaram a aceitação de consumidores em relação a produtos de alto desenvolvimento tecnológico ("hi-tech") e sua relação com o estilo de vida e indicadores demográficos de residentes de uma grande cidade da região central dos Estados Unidos. Como resultado da investigação, baseada no número de consumidores de produtos "hi-tech", detectou-se que 22% puderam ser classificados como "consumidores de produtos inovadores", outros 65% foram classificados entre a maioria dos que adotam o produto num tempo considerado médio, denominados "adotantes" e, finalmente, outros 13% foram considerados como "consumidores retardatários". Foram ainda encontradas diferenças significativas entre os inovadores, adotantes e retardatários, tais como idade, renda pessoal, estilo de vida, medo de complexidade tecnológica e medo de obsolescência.

Ser dono de uma equipamento com alta tecnologia não significa que este seja utilizado adequadamente. Piper (1990) mostrou que um terço das pessoas que possuem videocassete jamais haviam gravado um simples programa de televisão, ainda que estivessem em frente ao aparelho, isto é, não sendo necessário fazer qualquer tipo de programação. McKee (1992) corroborou essas conclusões graças a uma investigação na qual questionando 1156 donos de videocassete, constatou que mais de 50% experimentavam problemas na utilização das funções de seu aparelho.

IMPLICAÇÕES SOCIAIS E PSICOLÓGICAS DA TECNOFOBIA

Considerada à luz do seu aspecto social, a tecnofobia ou dificuldade em adequar-se às novas tecnologias, tem atingido negativamente vários programas educacionais. Muito divulgados pela mídia, o programa do MEC (Ministério da Educação e Cultura) de informatização para a rede nacional de escolas públicas, enquanto projeto, pretendeu comprar cem mil microcomputadores ao custo de aproximadamente R$ 480 milhões, e o programa TV Escola, ao custo de aproximadamente R$ 70 milhões (anônimo (a), 1997), transmite programas pedagógicos a professores de escolas públicas de todos os Estados. Esses dois programas têm se deparado com dificuldades elementares que emperram sua aplicação, como no caso do Estado de Alagoas, em que muitos professores não sabem usar um videocassete ou mesmo um controle remoto (anônimo (b), 1997).

As dificuldades de implementação de tecnologia educacional em decorrência de tecnofobia não são exclusivamente brasileiras. Pesquisas realizadas nos Estados Unidos têm demonstrado que grande parte das dificuldades de implementação de computadores em escolas públicas deve-se à resistência de professores na utilização de novas tecnologias (DeLoughry,1993; Rosen, 1995; Byers,1996).

Em contrapartida, outras pesquisas têm demonstrado que a exposição de alunos e professores aos computadores, assim como a novas tecnologias educacionais, reduz os níveis de tecnofobia (Rosen, 1995; Kassner, 1988). Assim, existem várias evidências de que atitudes de resistência na adoção de novas tecnologias educacionais podem ser modificadas em virtude da exposição controlada ao foco causador (Alkin, 1992; Olson e Zanna, 1993).

Em se tratando da utilização de programas da televisão comercial como apoio pedagógico, alguns autores questionam sua eficácia. Embora a exposição à tecnologia possa reduzir os níveis de tecnofobia, na opinião de Barros de Oliveira (1994), a utilização de programas comerciais de televisão na educação tem eficácia duvidosa, principalmente devido ao teor do conteúdo por eles divulgado. A liberdade de que goza a mídia em sociedades abertas tem como corolário um senso de responsabilidade, social que orienta essa mídia em relação ao que apresenta ao seu público. Este problema tem sido objeto de numerosos estudos, de que é exemplo dos mais significativos a contribuição de Schramm e colaboradores (Schramm, 1957; Schramm e Rivers, 1976).

Foster (1962), ao explorar as barreiras psicológicas para mudanças, menciona que uma pessoa, ao se defrontar com novas oportunidades, sua aceitação ou rejeição depende não só da articulação cultural básica, de um padrão de relações sociais favorável e de possibilidades econômicas, mas principalmente de fatores psicológicos.

Rosen & Weil (1995) apresentaram trabalhos demonstrando as reações psicológicas à tecnologia que foram mensuradas por meio de três diferentes questões: atitudes em relação à tecnologia, níveis de ansiedade na utilização de tecnologia e cognições positivas ou negativas quando defrontados a novos dispositivos tecnológicos. Cada unidade de medida foi transformada em um número "z" de pontuação a fim de proporcionar uma unidade de medida comum. Com base nesse fator de conversão, foi proposta uma equação que representaria uma dimensão das reações psicológicas negativas em relação à tecnologia, ou simplesmente "nível de tecnofobia", conforme apresentado a seguir.

Tecnofobia = 0,194 z Ansiedade + 0,566 z Atitude + 0,223 z Cognições negativas - 0,129 z Cognições positivas.

OS ESTUDOS DE VALORES DO CONSUMIDOR

A problemática dos valores e de sua avaliação psicológica tem sido objeto de atenção de pesquisadores e teóricos desde a contribuição pioneira, a dos "seis tipos de homens" proposta por Spranger (1928), que se referia às orientações científica, artística, econômica, religiosa, social e de liderança ou política. Essa contribuição forneceu a base para a elaboração de uma escala de valores por Allport e Vernon divulgada nos anos 30 e revista e aperfeiçoada por Allport, Vernon e Lindzey (1951). De acordo com esta última, os valores básicos dos seres humanos são reclassificados nas seguintes categorias: teórico, econômico, estético, social, político e religioso. Desde o seu aparecimento, escalas baseadas na tipologia de Spranger ou as propostas por Allport e colaboradores originaram extensa bibliografia de pesquisas científicas em diferentes países (VanKolck, 1981), inclusive no Brasil, como assinala Pfromm Netto (1974), que se refere à investigação de valores na área escolar junto a professores.

O problema dos valores pode ser igualmente proposto à luz das necessidades do indivíduo. Maslow (1954) sugeriu que uma consideração das necessidades dos seres humanos é essencial para a compreensão do seu comportamento. Isto é, ao se tornar ativa, uma necessidade em particular pode ser considerada tanto um estímulo à ação como uma impulsionadora das atividades do indivíduo; determina o que será importante para ele e molda seu comportamento como tal (cfr. Foxall e Goldsmith, 1994).

Assim, os sistemas de necessidades constituem fontes de motivação. O comportamento motivado é encarado como uma atividade a que a pessoa se obriga devido à tensão, agradável ou desagradável, sentida quando uma necessidade está presente. Esta atividade é intencional, voltada para um objetivo, devido à função orientadora ou canalizadora gerada pela necessidade.

O comportamento, assim, ocorre em resposta a estímulos negativos, criados pela existência de uma necessidade latente ou insatisfeita. Seu objetivo passa a ser o de reduzir esta sensação incômoda, procurando satisfazer uma necessidade relevante.

A fim de entender o significado motivacional dos comportamentos e os objetivos para os quais são dirigidos, é preciso conhecer as necessidades comumente não satisfeitas. Maslow (1954) sugere cinco sistemas básicos de necessidades, capazes de explicar o comportamento humano: básicas, segurança, associação, ego-status, auto-realização.

Essas necessidades são dispostas em ordem hierárquica, desde as mais primárias e imaturas, baseadas nos tipos de comportamento que estimulam, até as mais civilizadas e maduras. Segundo essa teoria, há uma tendência natural de desenvolvimento individual, a qual permite ter consciência da existência de cada um dos sistemas de necessidades e serem, portanto, os indivíduos motivados por eles em ordem ascendente.

Caso a satisfação de uma certa necessidade seja bloqueada ou indevidamente retardada, o indivíduo não desenvolverá nenhuma consciência das necessidades que se encontram mais acima na hierarquia. Quanto mais baixo o nível em que ocorre esse bloqueio, mais primitivos e imaturos poderão ser provavelmente os comportamentos empregados. Do mesmo modo, caso um nível de necessidade seja eventualmente galgado após privação prolongada e severa, o indivíduo pode continuar preocupado com a necessidade, porque ela nunca foi, ao menos em sua mente, completa ou adequadamente satisfeita (Kotler, 1997).

Isto é, ele pode se tornar hipersensível àquela necessidade em particular que se supõe o levaria a um afastamento do fator causador do problema ou mesmo um desconforto genérico, quando defrontado com produtos tecnológicos, no caso de estes serem a fonte do problema. A preocupação com níveis mais baixos de necessidades pode predispor uma pessoa a voltar àqueles níveis periodicamente, em especial quando necessidades da ordem superior são bloqueadas (Atkinson e outros, 1995).

Tendo em conta a proposta teórica de Maslow, pode-se supor que um indivíduo portador de tecnofobia poderia estar sendo tolhido devido a grandes dificuldades, principalmente nos níveis superiores de Ego-status e Auto-realização.

Uma direção mais ou menos recente no domínio da psicologia do consumidor e do marketing, que se relaciona com os propósitos do presente trabalho, tem sua origem na problemática da identificação de diferentes segmentos de consumidores, a partir de esquemas mais refinados e bem fundamentados do que as tradicionais categorias de classes sociais, zonas de residência etc. Mitchell (1983) desenvolveu uma classificação do público nos Estados Unidos, largamente utilizada hoje em dia naquele país, chamada "VALS" (values and life-styles), dividindo-o em nove grupos de estilos de vida, baseados na análise das respostas de 2713 entrevistados, que responderam a mais de 800 perguntas. As categorias sugeridas são: Integrados, Conscientes, Experimentadores, Eu sou eu* , Realizadores, Emuladores, Conserva-dores, Esperançosos e Sobreviventes, que são parcialmente reagrupadas em duas outras categorias, os dirigidos internamente e os dirigidos externamente. Conforme sugere Mowen (1993), esse sistema é particularmente orientado pela teoria da hierarquia das necessidades de Maslow.

Durante a década de 1980 a 1989 várias empresas especializadas em pesquisa de mercado, usuárias regulares do sistema "VALS", levantaram questionamentos sobre alguns elementos práticos no uso do sistema. O Stanford Research Institute (SRI), detentor dos direitos de comercialização do sistema, passou então a trabalhar numa revisão do "VALS", o "VALS2". Os pesquisadores do SRI, atendendo aos questionamentos dos usuários, presentemente põem um pouco menos ênfase nos valores, ao mesmo tempo que demostram maior preocupação com as bases psicológicas do comportamento, influenciadas pelos recursos de que dispõe o consumidor.

Na verdade, o "VALS" é, ao mesmo tempo, um instrumento e um programa de pesquisa científica que tem por base uma nova direção metodológica, conhecida como psicográfica. De acordo com Well (cit.por Wilkie, 1986), "trata-se de uma abordagem quantitativa de pesquisa que coloca os consumidores à luz de dimensões psicológicas, distintas das demográficas" (pag.97-98). Para Mowen (1987), psicografia refere-se à investigação quantitativa de estilos de vida e características de personalidade dos consumidores, correspondendo à idéia de descrever (grafia) a constituição psicológica (psico) dos consumidores. Na verdade, o termo psicografia é antigo no vocabulário psicológico, significando a "arte de escrever uma biografia ou descrição de caráter, baseada especialmente na análise psicológica do sujeito" (Chaplin, 1981, pag.452).

A partir de uma tradução feita pelo Autor, os oito grupos que compõem o VALS-2 são respectivamente: Atualizado (Actualizer), Realizador (Fullfilled), Vitorioso (Achiever), Experimentador (Experiencer), Esperançoso (Believer), Esforçado (Striver), Fazedor (Maker) e Batalhador (Struggler).

Em virtude do novo sistema VALS2 ainda estar em fase de aplicação em seu país de origem, neste trabalho o Autor optou por utilizar a classificação anterior, "VALS".

Integrados - Psicologicamente maduros, tolerantes, seguros, corretos interna e externamente

Conscientes - São transformadores, preocupados com a natureza, tem uma missão de vida, são bem sucedidos, socialmente responsáveis.

Experimentadores - São inquietos, buscam experiências novas, orientados para o crescimento interno,

Eu sou eu - Jovens, impulsivos, individualistas, dados a caprichos, buscam vantagem em tudo.

Realizadores - São vencedores, excelente posição social, dirigentes ou donos de empresas.

Emuladores - Querem tornar-se "grandes", ambiciosos, preocupam-se com o "status".

Conservadores - São integrados, convencionais, nostálgicos, preferem concordar a discordar.

Esperançosos - Pessoas em dificuldades, lutam para sair da pobreza.

Sobreviventes - Vivem para sobreviver, desesperadas, deprimidas e retraídas.

A partir desta classificação, pode-se conjeturar sobre os níveis e as formas em que a tecnofobia atinge cada grupo e subgrupo, acompanhando rapidamente e resumidamente a vida de um produto tecnológico. As considerações a seguir são sugeridas pelo Autor como uma tentativa de estabelecer relações entre o esquema proposto por Mitchell e a tecnofobia.

Os produtos contendo grande carga de inovações tecnológicas são, na maioria das vezes, lançados para os "Integrados", que é basicamente o público formador de opinião.

Os "Conscientes" esperam o lançamento do produto e começam a estudá-lo através de reportagens, propagandas e todo material a este referente. Quando o produto chega às suas mãos, o nível de conhecimento já é muito elevado e a dificuldade em aprender o detalhes é pequena. O aprendizado é feito pelo reforço positivo.

Já os "Experimentadores" seguramente são os analistas e críticos ferrenhos do produto, procurando defeitos e fazendo alarde quando os encontram, porém, para poder criticar com argumentos sólidos, estes precisam primeiro conhecer o produto. Assim, o aprendizado se dá pela negação.

Após esse período de testes de mercado, de importância crucial para o sucesso ou fracasso do produto, coleta-se a maior quantidade de informações provenientes dos formadores de opinião, executam-se as devidas correções e adaptações e parte-se para o lançamento em larga escala para o grupo intermediário formado pelos Eu sou eu, Realizadores e Emuladores.

Esses três grupos de consumidores parecem ser o que sofrem as maiores dificuldades em termos de tecnofobia, haja visto que estes devam ser os maiores utilizadores da nova facilidade tecnológica.

Os "Realizadores" são os que mais se aproximam dos "Conscientes", sendo os primeiros de seu grupo a adquirirem a novidade. São também os que mais sofrem de ansiedade após a compra. Isso pode ser explicado pela hipótese da Dissonância Cognitiva (Festinger,1957). Geralmente há uma dissonância ou falta de harmonia entre as várias percepções do comprador sobre o produto adquirido e as alternativas rejeitadas. Os sentimentos negativos poderão surgir ainda em virtude do uso do produto, considerando seu desempenho um desapontamento ou encontrando um problema não esperado, como, por exemplo, a dificuldade no aprendizado, um manual de utilização excessivamente técnico ou ainda instruções em idioma estrangeiro.

Os "Emuladores" seguramente adquirem o novo produto. Esses, porém, são os que provavelmente sofrem em silêncio, aprendem a duras penas as funções principais do produto e memorizam alguns termos da nova tecnologia. Têm como objetivo oculto apresentarem-se, para os amigos ou pessoas de seu ambiente social, como especialistas, entendidos e usuários absolutamente integrados às inovações. No entanto é possível que o produto seja rapidamente encostado e o "Emulador" se volte para outra novidade tecnológica.

Quando o produto chega aos "Conservadores", já está na sua terceira ou quarta geração e teve muitos aspectos negativos corrigidos; a essa altura, a utilização do produto já está bem popularizada e os recursos simplificados. Nessa fase da vida do produto, sua rejeição por tecnofobia é pequena, tende a ficar restrita a um grupo de consumidores com baixo nível de instrução.

Supõe-se que a próxima etapa da vida do produto seja a simplificação total dos recursos tecnológicos, como também a eliminação de qualquer "peso extra", de modo a auxiliar a diminuição do custo do produto. Obviamente, no caso desta última fase, o público alvo se concentra nos "Esperançosos e Sobreviventes" (Cobra,1990).

Assim, os "Esperançosos e Sobreviventes" ficam cada vez mais à margem das inovações tecnológicas. Não utilizam caixas eletrônicos e controles remotos, suas maquinas de lavar são tanquinhos rotativos, seus aparelhos de TV poderão, talvez, ter controle remoto mas são extremamente simplificados. Enfim, no caso por exemplo dos caixas eletrônicos, são relegados às grandes filas nos bancos e dos institutos estatais.

Esta última categoria de indivíduos, talvez retrate boa parte dos cidadãos que compõem a sociedade brasileira e que vem sendo submetidos a uma privação deliberada no acesso ao conhecimento. Segundo Angotti (1991), este fato tem raízes históricas e vem ocorrendo desde a época colonial.

CAPÍTULO III

A EDUCAÇÃO E O COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR

Os aspectos anteriormente apresentados conduzem a considerações a respeito de onde possam residir as causas básicas da tecnofobia. Percebe-se uma tendência em usuários de novos aparelhos eletrodomésticos e de equipamentos em geral no sentido de iniciarem a utilização desses aparelhos através da aprendizagem operacional, ou seja, com algumas exceções, o manual é deixado de lado e inicia-se a utilização do produto por ensaio-e-erro (Gagné, 1983).

Seria possível supor-se também que este problema possa ter origem lingüistica. Afinal, quando os equipamentos obedecerem ao comando da voz, esse problema poderá estar solucionado. Imagine-se para isso uma ordem ao telefone programável: "telefone, ligue-me com a casa de fulano". Porém, o que hoje parece ser um problema com raízes notadamente superficiais pode, na verdade, ter raízes bastante profundas, que remetem, inclusive, às possíveis origens de dificuldades e problemas de aprendizagem.

As formas utilizadas para se transmitir informações a respeito do funcionamento e uso dos equipamentos tecnológicos são uma extensão daqueles métodos utilizados nos sistemas de ensino que utilizam a simples memorização de cor, sem a compreensão do significado do que é ensinado e aprendido. Isso supõe-se induzir o usuário às lembranças de dificuldades que experimentou no ensino básico.

Ao aspecto aqui considerado da problemática que é objeto da presente investigação, podem ser acrescentadas algumas considerações pertinentes, propostas por Marchiori (1996). De acordo com essa autora, o interesse pelo conhecimento é uma característica humana que não necessariamente está ligado a uma temática concreta ou específica. As mudanças na forma de pensar conduzem à resolução da maioria questões referentes à problemática científica, o que implica na abertura de novas idéias.

Para que ocorra o aprendizado, lembra Marchiori que, além da prontidão cognitiva, é necessário que o indivíduo tenha interesse pelo conhecimento a ser adquirido, que se sinta motivado, ou seja, que tenha a vontade, o impulso ou a necessidade de aprender.

Segundo Marchiori (op. cit.), aprender não significa apenas reter temporariamente uma quantidade de noções enciclopédicas para depois reproduzi-las conforme a exigência da escola. Aprender implica em saber e, principalmente, utilizar esse conhecimento para resolver problemas de ordem prática.

·  A ALFABETIZAÇÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA

Independentemente de outros fatores, condições e aspectos que têm a ver com a tecnofobia, há um razoável consenso entre os que se ocupam com este problema quanto à relação existente entre esse tipo de dificuldade e a pouca ou nenhuma formação acerca dos fundamentos da ciência e da tecnologia. Em virtude de razões que fogem ao propósito desta pesquisa, o ensino-aprendizagem de ciência e tecnologia proporcionado à grande maioria dos brasileiros ressente-se tanto da falta de materiais, equipamentos e instalações nas escolas mantidas pelos poderes públicos como do preparo precário ou nulo que o professorado recebe nesse sentido (Pfromm Netto, Dib e Rosamilha, 1974).

Giordan e DeVechio asseveram que objetivo da aprendizagem científica deve ser muito refletido, tendo em vista a relação deste tipo de preocupação com outras de igual ou maior importância, como é o caso da preparação do indivíduo para uma futura profissão de pesquisador e o ganho de um conhecimento adequado ao ambiente tecnológico em que vivemos ao invés de constituir apenas mais um pretexto para o desenvolvimento de qualidades intelectuais (Giordan e De Vecchi, 1996).

Amaral (1989) observa que o fato dos currículos, em todos os níveis de ensino, geralmente priorizarem a transferência de conhecimento sem o estabelecimento de conexões com a vida cotidiana, pode redundar em prejuízos para a aprendizagem e o desenvolvimento das crianças e dos adolescentes, gerando o desinteresse dos alunos desde o primeiro grau, pelo conhecimento, prática e desenvolvimentos das ciências de e da tecnologia.

Casteel e Isom (1994) referem-se à melhor maneira de favorecer o aprendizado da Ciência nas escolas. Esses autores ressaltam a necessidade de começar pelo que os estudantes já sabem, inclusive no que respeita ao efetivo domínio, por estes, dos processos de leitura e escrita, uma vez que muitos dos que sentem dificuldade para compreender ciências também exibem limitações quanto à integração das capacidades essenciais de ouvir, falar, ler e escrever.

O PROFISSIONAL DE EDUCAÇÃO E AS NOVAS TECNOLOGIAS

Quando as preocupações referentes à tecnofobia se voltam mais para características do indivíduo enquanto elemento social, afloram problemas outros que dificilmente seriam percebidos se não fossem levadas em conta essa características, como, por exemplo, os distúrbios gerais de aprendizagem (Bee, 1984), falhas na capacitação docente (Coelho,1992), percepção inadequada da ciência e tecnologia (Marchiori, 1996), discriminação sexual (Parker e Rennie, 1995), discriminação social (Angotti, 1991), problemas de lingüistica (Casteel e Isom ,1994), entre outros, interligados.

Bee (1984) assinala que a capacidade de conhecer é a condição que o indivíduo tem de estabelecer relações através de estruturas mentais que não são inatas. O desenvolvimento cognitivo é construído em dependência direta das estimulações e solicitações do meio, em etapas que, obedecendo uma seqüência, fornecem subestruturas para o desenvolvimento dos níveis seguintes.

Lollini (1991) salienta que a criação de novos hábitos em relação à tecnologia é uma das responsabilidades da educação formal, para que cada uma de suas aplicações possa ser considerada como uma possibilidade de ocupar o tempo livre ou de trabalhar com mais eficiência. Ainda de acordo com esse autor, a disponibilidade de recursos tecnológicos está se tornando tão exuberante que é cada vez mais difícil dedicar o tempo necessário à exploração de cada um deles. Wallace e Louden (1994) incluem como fatores fortemente determinantes à pratica de ensino do professor sua experiência de vida, sua prática e seu senso de auto valor.

Esse problema aparentemente não é privilégio de nosso país ou mesmo de países do terceiro mundo. Gates (1995) menciona que a escola primária ou secundaria média nos Estados Unidos está muito abaixo da empresa americana média, no que concerne ao acesso às novas tecnologias da informação. As escolas ainda oferecem cadernos e lousas para ensinar crianças que, mesmo em idade pré-escolar, já estão familiarizadas com telefones celulares, "bips" e microcomputadores. Aparentemente a lentidão das escolas em adotar tecnologia reflete parcialmente o conservadorismo de boa parte do "establishment" educacional, ao mesmo tempo que sinaliza o desconforto ou mesmo a apreensão por parte dos professores e administradores que, enquanto grupo, são mais velhos que o trabalhador médio.

Também pode-se supor que o problema seja agravado por pequenas e insuficientes verbas destinadas ao ensino formal para a tecnologia educacional, principalmente nas escolas públicas.

Gaskell (1992), corrobora a opinião dominante na literatura, ao argumentar que a visão da maioria dos estudantes de 2o grau sobre ciência, tecnologia e seus aspectos sociais é contraditória e diversa da que a comunidade científica esposa. Aponta como principais causas as falhas dos atuais cursos de Ciências, em que os professores apresentam visões pessoais e inadequadas sobre a natureza da ciência, que contradizem a visão atual da filosofia da ciência e do ensino-aprendizagem científicos.

O mesmo autor menciona que uma visão mais autêntica da ciência poderia beneficiar futuros cientistas, engenheiros e técnicos, ao proporcionar-lhes uma concepção e uma expectativa mais realistas de suas futuras atividades, levando-os a refletir sobre suas implicações e influências sociais e políticas.

O desinteresse dos alunos de primeiro grau pelas disciplinas de cunho cientifico é justificado pelo fato dos currículos priorizarem a transferência de conhecimento, sem estabelecer conexões com o cotidiano dos alunos, conforme é mencionado por Amaral (1989).

Acrescente-se o que observa Carraher (1985), ao registrar que o conteúdo programado para a área de Ciências muitas vezes é de uma tendência informativa e expositiva, em uma versão enciclopédica simplificada, não tendo a preocupação de desenvolver as estruturas cognitivas dos alunos. Apresenta apenas tópicos ou temas que não propiciam a estimulação do raciocínio.

A revista Veja encomendou uma pesquisa sobre computadores à Companhia Brasileira de Pesquisa e Análise (CBPA), que ouviu 715 pessoas de ambos os sexos, de 15 a 60 anos de idade, das classes A/B/C e D+ , na classificação técnica desse instituto.

Alguns dados são relevantes para os propósitos desta pesquisa. Entre os sujeitos investigados, 88% acham que o computador faz parte do mundo dos jovens; 94% acham que ter computador significa estar em dia com os avanços tecnológicos; 55% acham que as constantes novidades da industria de informática causam muita ansiedade; 64% acham que as pessoas que não usam computador se sentem inferiores diante dos usuários; 67% não se sentem habilitados para utilizar o computador; 42% acham que computador é mais difícil do que parece; 93% dos que tem micro em casa acham que o computador não pode substituir o professor; 75% dos que não tem micro em casa acham que o computador não pode substituir o professor; 67% acham que computador vicia; 53% acham que ter computador significa ter importância social; 60% acham que entender de computador facilita fazer amigos (Anônimo, 1995).

Apesar da pesquisa aqui mencionada limitar-se à área de informática, estes dados por si sós sugerem as várias distorções existentes nas concepções dos consumidores quanto à utilização de tecnologia.

Face ao anteriormente exposto, serão em seguida propostos os objetivos do presente trabalho.

OBJETIVOS

Nas seções anteriores, foram feitas algumas considerações baseadas na literatura especializada sobre alguns aspectos determinantes do comportamento do consumidor. Aparentemente existem poucos estudos dedicados à investigação dos níveis de incidência de tecnofobia entre consumidores brasileiros, que estão vivenciando uma maior oferta tecnológica, principalmente em profissionais da área de educação, obrigados, nos dias atuais, a conviver com alunos que trazem para a sala de aula uma proximidade com a tecnologia aparentemente mais farta do que aquela com que se deparam nas instituições de ensino.

Na literatura internacional existem muitos trabalhos que há algum tempo vem trazendo à tona a problemática da tecnofobia entre atuais e futuros professores. Estes estudos tratam desde a concepção e postura dos professores frente a novas tecnologias até o incentivo à diminuição da tecnofobia pela exposição ao computador e à melhoria do ensino científico e tecnológico nas escolas, da primeira infância à universidade (Symington, 1974; McNayry, 1985; Baker e Piburn, 1991; Carré e Ovens, 1994; Marxen,1995; Wildy e Wallace,1995).

A literatura científica disponível inclui igualmente vários estudos, propostas e projetos que têm como alvo a familiarização e a formação da criança frente à ciência e à tecnologia, que propiciariam, com isso, uma possível diminuição na incidência de tecnofobia nos indivíduos adultos (Chambers, 1990; Fleer,1990; Napper, 1991; Rennie e Jarvis,1994).

Entretanto, pouco se conhece sobre a atual situação do professor brasileiro em relação à aceitação de novas tecnologias em geral e de novas tecnologias diretamente pertinentes à escola e ao ensino-aprendizagem.

Pretendeu-se com a presente investigação:

  1.  
  2. detectar a existência de uma possível relação entre a formação do indivíduo e uma maior ou menor resistência às novas tecnologias;
  3.  
  1. identificar em que categorias de perfil de consumidor os sujeitos podem ser enquadrados;
  2.  
  1. verificar quais são os aspectos negativos apontados pelos sujeitos, para justificar sua aversão ao uso de computadores e produtos tecnológicos;
  2.  
  3. levantar possíveis diferenças quanto ao nível de tecnofobia entre consumidores de produtos de informática e estudantes de educação, e

e) avaliar a relação entre tecnofobia e o perfil dos sujeitos.

CAPÍTULO IV

MÉTODO

 - SUJEITOS

A pesquisa aqui relatada foi realizada no município de Campinas, Estado de São Paulo. A amostra foi constituída de cinqüenta sujeitos determinados por meio de sorteio equiprobabilístico, sendo que a metade teve como fonte de referência o cadastro de clientes usuários de computador de uma loja do ramo de "softwares", localizada na cidade de Campinas, e os vinte e cinco restantes tiveram como fonte a condição de alunos do curso de pedagogia de uma das universidades da mesma cidade, determinados de modo aleatório, muitos dos quais, aliás, já atuam na rede pública de ensino e buscam sua capacitação formal em virtude das novas exigências governamentais nesse sentido.

Assim, foram constituídos os seguintes grupos:

a) Grupos de Estudantes - (N=25): Ge

b) Grupo de Consumidores - (N=25): Gc

Do total de 50 sujeitos, 32 pertencem ao sexo feminino e os 16 restantes ao sexo masculino, 64% e 36% respectivamente. Entre o Grupo de Estudantes, apenas 7 pertencem ao sexo masculino e 18 ao sexo feminino, ou seja, apenas 28% de sujeitos do grupo de estudantes pertencem ao sexo masculino e 72% ao sexo feminino, isso provavelmente se deve ao paradigma de que pedagogia é um curso com maior procura pelo público feminino. Já no grupo de consumidores a diferença ficou mais equilibrada com 11 sujeitos do sexo masculino (44%) e 14 do sexo feminino (56%). Em relação ao estado civil dos sujeitos, a situação do total de sujeitos ficou equilibrada, com 26 solteiros, 23 casados e apenas 1 divorciado. O grupo de estudantes contou com 12 casados, 12 solteiros e 1 divorciado e o grupo de consumidores contou com 11 casados e 14 solteiros.

Com relação às faixas etárias dos sujeitos, como era esperado, estas apresentaram uma concentração maior nos integrantes da faixa de 21 a 40 anos (acima de 50%), tanto no grupo de estudantes como no grupo de consumidores, como pode se observado na Tabela 1.

Tabela 1- Caracterização dos sujeitos quanto à faixa etária e grupo a que pertencem.

Faixas de idade

Ge

Gc

Total

 

F

%

F

%

F

%

Menos de 20

5

20,0

7

28,0

12

24,0

Entre 21 e 40

14

56,0

13

52,0

27

54,0

Entre 41 e 60

6

24,0

4

16,0

10

20,0

Acima de 60

0

0

1

4,0

1

2,0

Totais

25

100,0

25

100,0

50

100,0

 

 - MATERIAL

Foi usado um questionário elaborado pelo Autor, composto por questões abertas e fechadas, que, além dos itens referentes ao tema pesquisado, incluiu questões com o objetivo de caracterizar os sujeitos quanto à idade, sexo, grau de instrução, faculdade cursada, ano de conclusão do curso, profissão que exercem atualmente, aparelhos eletrodomésticos que possuem e se sabem utilizá-los em todas as suas capacidades, cursos que fizeram sobre computação, há quanto tempo utilizam computadores, tipo de utilização de computador ( profissional e/ ou pessoal) e tempo semanal de utilização do computador.

O instrumento para o desenvolvimento da pesquisa propriamente dita abrangeu, além de um conjunto de questões ligadas à problemática da investigação, vários outros aspectos, referidos a seguir: Uma questão foi traduzida e adaptada pelo Autor da escala "Computer Attitude Measure" proposta por Kay (1993) (questão 22 do anexo I). A classificação do perfil do consumidor foi feita em função de uma questão na qual o indivíduo se auto-identificou, com base na classificação VALS ( Mitchell, 1983). A identificação dos valores dos sujeitos foi feita com base numa questão adaptada da literatura referente aos estudos psicológicos sobre valores, notadamente o clássico estudo de valores de Allport, Vernon e Lindzey (1951; Anastasi, 1990).

As questões acima mencionadas foram propostas sob a forma de múltipla escolha, e serviram para determinar como as pessoas se sentem quando precisam utilizar equipamentos computadorizados ou produtos tecnológicos de consumo popular que incluem produtos tecnológicos de entretenimento doméstico, aparelhos de utilização em cozinhas domésticas, equipamentos de escritório, aparelhos de uso pessoal e caixas automáticos de bancos. Serviram igualmente para verificar quais as formas utilizadas na aprendizagem de informática, opiniões a respeito dos manuais de equipamentos, contatos que tiveram com equipamentos tecnológicos na escola e suas atitudes como consumidor frente a novos lançamentos tecnológicos.

O instrumento foi preliminarmente aplicado em um pequeno grupo de estudantes universitários de pós-graduação, de ambos os sexos, mostrando-se adequado aos objetivos deste estudo.

 - PROCEDIMENTO

Os sujeitos foram consultados previamente pelo pesquisador, sobre sua disposição em participar como sujeitos da pesquisa. Aos que concordaram, foram entregues os questionários por meio de contato pessoal. Para o preenchimento dos questionários foi concedido o prazo de uma semana, conforme solicitação dos próprios sujeitos, que o consideraram muito longo.

CAPÍTULO V

RESULTADOS

Em relação à questão que classifica os sujeitos de acordo com a escala de valores proposta por Allport e Vernon, como pode ser verificado na Tabela 16, no grupo de estudantes 10 sujeitos identificaram-se como sociais (40%), 7 sujeitos são mais teóricos (28%), 3 são aqueles que se identificam mais com valores religiosos (12%), 2 sujeitos afirmaram valorizar a estética (8%), 2 sujeitos consideram os valores políticos (8%) e apenas 1 sujeito considera mais importante para ele os valores econômicos. No Gc, os sujeitos, da mesma forma que no grupo de estudantes, têm como principais valores os sociais (40%), enquanto 9 sujeitos (36%) são mais teóricos, 5 sujeitos priorizam os valores econômicos (20%) e apenas um declarou estar mais de acordo com os valores estéticos (4%). Nenhum sujeito do Gc se identificou com os valores religiosos e políticos. À luz dos presentes resultados, portanto, há evidente predomínio dos valores sociais e teóricos em relação aos valores estáticos, religiosos e políticos, tanto em Ge como em Gc. Os valores econômicos, mencionados por apenas um sujeito em Ge, ganharam mais adeptos (20%) em Gc.

O cálculo do qui-quadrado para a comparação intragrupo do Ge resultou em 60,32, o que rejeitou a hipótese nula, devido provavelmente à forte incidência de sujeitos que indicaram como seus principais valores os sociais (n.sig. = 0,05, n.g.l=5 e X2c = 11,07). No Gc, o cálculo do qui-quadrado resultou em 32,48, também rejeitando a hipótese nula (n.sig.=0,05, n.g.l = 3 e X2c = 7,82).

 

Tabela 16 - Classificação dos sujeitos segundo os valores predominantes (n.sig.=0,05; p/ Ge n.g.l=5 e X2c = 11,07; p/ Gc n.g.l = 3 e X2c = 7,82; p/ o Total n.g.l = 5 e X2c = 11,07).

Valores

Ge

Gc

Total

 

F

%

F

%

F

%

Sociais

10

40,0

10

40,0

20

40,0

Teóricos

7

28,0

9

36,0

16

32,0

Econômicos

1

4,0

5

20,0

6

12,0

Estéticos

2

8,0

1

4,0

3

6,0

Religiosos

3

12,0

0

0

3

6,0

Políticos

2

8,0

0

0

2

4,0

Total

25

 

25

 

25

 

X²0

 

60,32

 

32,48

 

71,36

Em relação à classificação VALS, a Tabela 17 apresenta os resultados das respostas dos sujeitos. Ao contrário do que ocorreu com os resultados da pesquisa original, com o instrumento que serviu para classificar o público dos Estados Unidos da América em tese, na pesquisa aqui relatada não foi detectada a presença de sujeitos na categoria "eu sou eu", que no país de origem da classificação VALS resultou em 5% da população. Os resultados obtidos nesta pesquisa em relação às categorias VALS serão mais adiante, no Capítulo VII, discutidos e comparados com os resultados da pesquisa original norte americana.

Dois sujeitos do grupo de estudantes (8%) foram classificados como pertencentes à categoria dos sobreviventes e esperançosos contra nenhum sujeito do grupo dos consumidores. Na categoria dos conservadores 8 foram os sujeitos do Ge (32%) e 5 sujeitos do Gc (20%) que se identificaram com essa categoria. Na categoria de emuladores, que no público estadunidense conta com 10% da população, na presente pesquisa não foi encontrado nenhum estudante. Houve apenas um sujeito identificado no grupo de emuladores (4%). Foram 2 os sujeitos do Ge que se identificaram como realizadores (8%) e 7 sujeitos no Gc (28%), o que já era esperado em virtude da origem da amostra. A categoria de experimentadores contou com 1 estudante (4%) e 4 sujeitos do Gc (16%). Seis sujeitos do Ge responderam ser conscientes (24%) e apenas 1 sujeito (4%) do grupo de consumidores se identificou como consciente. Surpreendentemente, o número de integrados nos dois grupos foi elevado, se comparado com a pesquisa estadunidense, que encontrou apenas 2% de integrados na população daquele país, contra 26% do total da amostra desta pesquisa. No caso do Ge, seis foram os que se identificaram como integrados (24%) e no Gc sete foram os que se identificaram (28%).

Em resumo, em função das categorias "VALS", o grupo de estudantes se apresenta com predomínio de conservadores, conscientes e integrados, enquanto no grupo de consumidores se destacam mais os integrados, realizadores e conservadores. O que os diferencia, nesse sentido, é a presença dos realizadores no Gc e a dos conscientes no Ge.

O cálculo do qui-quadrado para a comparação intragrupo do Ge resultou em 39,20, o que rejeitou a hipótese nula, devido provavelmente às baixas incidências de sujeitos nas categorias de Experimentadores, Realizadores e Sobreviventes (n.sig. = 0,05, n.g.l=5 e X2c = 11,07). No Gc, o cálculo do qui-quadrado resultou em 35,36, também rejeitando a hipótese nula (n.sig.=0,05, n.g.l = 5 e X2c = 11,07).

 

Tabela 17 - Posicionamento dos sujeitos segundo a classificação VALS (n.sig.=0,05;

p/ Ge n.g.l=5 e X2c = 11,07; p/ Gc n.g.l = 5 e X2c = 11,07; p/ o Total n.g.l = 7 e X2c = 14,07).

 

Categorias "VALS"

Ge

Gc

Total

 

F

%

F

%

F

%

Conservadores

8

32

5

20

13

26

Integrados

6

24

7

28

13

26

Realizadores

2

8

7

28

9

18

Conscientes

6

24

1

4

7

14

Experimentadores

1

4

4

16

5

10

Sobreviventes e esperançosos

2

8

0

0

2

4

Emuladores

0

0

1

4

1

2

Eu sou eu

0

0

0

0

0

0

Total

 

25

 

25

 

25

 

X²0

 

 

39,20

 

35,36

 

39,44

Quando inquiridos de forma direta sobre sua atitude em relação à tecnologia (questão 18 do anexo 1), 4 sujeitos do grupo de estudantes (16%) responderam de forma a serem considerados tecnofóbicos contra apenas um sujeito do grupo de consumidores, como pode ser observado na Tabela 18. O item que identificava os conservadores foi o que contou com o maior percentual nos dois grupos, apareceram 17 sujeitos do Ge (68%) e 13 sujeitos do Gc (52%) na categoria de conservadores. No quesito que identificava os sujeitos que querem conhecer os últimos lançamentos tecnológicos do mercado desde computadores até aparelhos eletrodomésticos e que se fascinam com projetos tecnológicos em que o computador é o principal controlador, aqui denominados "tecnomaníacos", o grupo de consumidores foi o que apresentou a maior incidência com 11 sujeitos (44%), como era esperado, contra apenas 4 sujeitos do grupo de estudantes (16%).

O cálculo do qui-quadrado para a comparação intragrupo do Ge resultou em 54,08, o que rejeitou a hipótese nula, devido provavelmente à maior concentração de sujeitos conservadores (n.sig. = 0,05, n.g.l=2 e X2c = 5,99). No Gc, o cálculo do qui-quadrado resultou em 39,04, também rejeitando a hipótese nula (n.sig.=0,05, n.g.l =2 e X2c = 5,99).

Tabela 18 - Categorização dos sujeitos quanto à opinião sobre seu comportamento em relação às novas tecnologias (n.sig.=0,05; p/ Ge n.g.l=2 e X2c = 5,99; p/ Gc n.g.l =2 e X2c = 5,99; p/ o Total n.g.l = 2 e X2c = 5,99).

 

Auto-conceito

Ge

Gc

Total

 

F

%

F

%

F

%

Conservador

17

68

13

52

30

60

Tecnomaníaco

4

16

11

44

15

30

Tecnofóbico

4

16

1

4

5

10

Total

 

25

 

25

 

50

 

X²0

 

 

54,08

 

39,04

 

38,00

Os resultados obtidos no quesito "nível de conhecimento de aparelhos e equipamentos tecnológicos", levam a concluir, em uma primeira análise, que os sujeitos tendem a pensar de igual modo, conforme pode ser observado na Figura 2. A questão pedia aos sujeitos que indicassem sua familiaridade com aparelhos tecnológicos diversos e sugeria cinco níveis, desde "Sei utilizar" (nível 1) até "Não sei utilizar" (nível 5). Porém a pesquisa não levou em conta o fato de a pessoa possuir, ou não, o equipamento ou aparelho em questão. É possível que esse fato tenha prejudicado o resultado, já que a resposta "não sei utilizar" referia-se, neste ou naquele sujeito, não à tecnofobia, mas à circunstância deste, na ocasião da realização da pesquisa, não contar com o equipamento ou aparelho mencionado. Isto pode se ligar a problemas até mesmo de ordem econômica, e não a uma declarada resistência à tecnologia. Em outra palavras pode acontecer que alguém responda que no momento não sabe usar um certo item porque não dispõe dele, muito embora esteja em seus planos comprá-lo num futuro próximo, quando então disporá de dinheiro para essa compra.

Utilizando-se o teste Mann-Whitney p/ amostras grandes, a probabilidade p=0,3483 dentro do nível de significancia 0,05, indica que a diferença não é significante.

Figura 2 - Nível de conhecimento de equipamentos e aparelhos tecnológicos (n.sig.=0,05; z = 0,39 e p=0,34)

Uma das formas de se medir a tecnofobia nos sujeitos foi a utilização da questão 22 do anexo 1, adaptada pelo Autor da escala "CAM", "Computer Attitude Measure" (Kay,1993). Como era esperado, os resultados sugerem uma incidência maior de tecnofobia no Ge em comparação com o Gc, conforme pode ser observado na Figura 3. Os estudantes apresentaram uma diferença média de 7,76% superior os grupo de consumidores no seu nível de tecnofobia. A diferença se manteve superior em todos os itens consultados, exceto no item "calmo X tenso", em que os consumidores tiveram índice ligeiramente superior aos estudantes, ou seja, estes sentem-se menos calmos do que os estudantes quando utilizam computadores.

Utilizando-se o teste Mann-Whitney p/ amostras grandes, obteve-se a probabilidade p=0,0281, dentro do nível de significancia 0,05, que indica que a diferença é significante.

Figura 3 - Valores que os sujeitos atribuíram às suas atitudes em relação ao computador (n.sig.=0,05; z=1,91 e p=0,0281)

 

CAPÍTULO VI

DISCUSSÃO

Em decorrência do levantamento bibliográfico realizado neste trabalho, pode-se constatar a existência de poucas pesquisas na área de tecnofobia em âmbito internacional, sendo que a maioria delas se concentra em trabalhos de uns poucos autores, especialmente de origem norte-americana. No Brasil, até o momento, praticamente inexistem investigações mais aprofundadas em relação a este tema. A pesquisa apresentada neste trabalho concentrou-se em apenas dois segmentos específicos da população brasileira e em uma região que não representa necessariamente o restante do país.

As pesquisas realizadas nesta área vêm derrubando suposições de que existam relações entre tecnofobia e classes sociais, condição econômica ou nível de desenvolvimento tecnológico do país ou região, conforme comprovou a investigação realizada por Weil e Rosen (1995) que, surpreendentemente, revelaram níveis de tecnofobia elevados entre estudantes em países altamente desenvolvidos tecnologicamente, como o Japão, que colocam esse país junto a outros como a Polônia, a Índia ou o Quênia. Em contrapartida, essa pesquisa revelou países como a Iugoslávia, a Croácia e a Hungria com baixos índices de tecnofobia entre estudantes, juntamente com países como os Estados Unidos e Israel.

Poder-se-ia supor, então, que em um país de dimensões continentais como o Brasil, de variados costumes e significativos desníveis sócio econômicos, também surgiriam resultados diversos, e dignos de interesse, em investigações ligadas à tecnofobia.

Apesar de uma maior incidência de sujeitos do Gc nas áreas de tecnologia e engenharia, acredita-se que isto não tenha afetado o resultado, haja vista que, em função de uma análise mais detalhada realizada pelo Autor, as respostas desses sujeitos dessas áreas profissionais não os diferenciava dos demais, como por exemplo, as dos profissionais de direito e administração, que juntos somaram 48% dos sujeitos.

Em relação à idade, os dois grupos tiveram uma distribuição equilibrada. Por outro lado, como era esperado, o tempo de conclusão do curso superior, no caso do Ge, concentrou-se nos que não haviam concluído esse curso, em comparação com o Gc que contou com uma distribuição mais equilibrada, desde indivíduos não formados a sujeitos com mais de 11 anos de conclusão do curso superior. Esse resultado leva ao questionamento sobre a possível existência de uma relação entre sujeitos mais expostos à tecnologia em sua vida e aqueles que ainda se encontram em processo de formação.

Quanto ao nível de conhecimento do idioma inglês, é lamentável ter sido detectada uma forte tendência de que os estudantes de pedagogia tenham tão pouco conhecimento desse idioma. Não se deve perder de vista que, num mundo crescentemente afetado pela globalização esses estudantes serão futuros educadores, e nos dias atuais o conhecimento desse idioma é vital na área de educação, já que os professores devem se valer diariamente de informações em inglês. O encurtamento das distâncias globais, através principalmente de "mídias" como Internet e TV a cabo, expõe não somente os alunos, mas toda a população a informações que percorrem o mundo a velocidades nunca antes imaginadas.

Os estudantes de pedagogia devem urgentemente se preparar nesse idioma para que estejam mais bem preparados para exercer suas funções profissionais. Em contrapartida, o grupo de sujeitos consumidores apresentou grande percentual de sujeitos com maior conhecimento do idioma inglês, algo que, seguramente, está facilitando sua convivência com novas tecnologias e seu uso destas.

No quesito "contato que tiveram com tecnologia em suas escolas", os resultados entre os dois grupos foi bastante aproximado, não permitindo uma consideração mais aprofundada quanto a relação possivelmente existente entre a exposição à tecnologia nas séries iniciais e o desenvolvimento de tecnofobia no indivíduo. Essa seria outra linha de pesquisa bastante importante para o devido atendimento educacional da necessidade de alfabetização científica em massa, que hoje em dia preocupa educadores do mundo inteiro (AAAS, 1990, 1993; Wandersee e Roach, 1998).

Vale aqui lembrar a opinião de praticamente a totalidade dos sujeitos que considerou importante e necessário que alunos de escolas públicas aprendam computação e utilizem computadores. O Autor externa sua preocupação quanto ao fato de haver entre os estudantes aqueles poucos que não consideram importante a utilização de computadores, e portanto, novas tecnologias educacionais. Por outro lado, é importante esclarecer que, ao afirmar a necessidade de que professores conheçam o idioma inglês e também estejam abertos a novas maneiras de ensinar, não se pretende apoiar o uso abusivo ou indiscriminado desse idioma e a simples substituição de palavras. A utilização de palavras pertencentes ao nosso idioma que podem facilmente ser aplicadas no lugar daquelas importadas, como por exemplo "apagar" no lugar de "deletar", deve ser incentivada. Enfim, a ponderação e o equilíbrio devem ser mantidos em foco nesta questão.

Em relação à utilização de computadores e equipamentos tecnológicos, conforme mencionado no Capítulo II, existem várias evidências de que as atitudes de resistência na adoção de novas tecnologias podem ser modificadas pela exposição do sujeito ao foco causador, como comprovam pesquisas nas quais, graças à exposição de alunos e professores aos computadores, obteve-se uma redução nos níveis de tecnofobia (Rosen, 1995; Kassner, 1988; Alkin, 1992; Olson e Zanna, 1993). Os resultados apresentados na investigação aqui relatada demonstram forte evidência em relação à diminuição da tecnofobia pela exposição ao computador, já que um percentual elevado de estudantes, e maior ainda no caso dos consumidores, afirmaram possuir computador, sendo que também é grande o número destes sujeitos que utilizam o computador em suas residências para diversos fins, tais como trabalho, estudo e diversão.

Outro dado importante na confirmação da teoria de que indivíduos que mantém contato constante com computadores tendem a diminuir sua tecnofobia, é a constatação de que a maioria dos sujeitos desta pesquisa têm tido contato com computadores há mais de 1 ano. A Figura 4 apresenta um gráfico que permite uma visualização clara de que nos dias atuais o computador passou a fazer parte da vida dos indivíduos de nosso país. Esse sujeitos, em virtude de manterem contato com computadores há mais de um ano, somado à facilidade de acesso ao equipamento em seus lares, ao alcance de suas mãos, nas horas de lazer, acrescentado a fatos como a tendência de se apresentar trabalhos escolares digitados em computadores, podem estar sendo favorecidos na diminuição à resistência a novas tecnologias.

Figura 4 - Distribuição dos sujeitos quanto ao tempo de contato com computadores.

Quando se analisa a maneira pela qual os sujeitos, na sua maioria, se referiram ao método de aprendizagem para a utilização de computadores, percebe-se novamente que a aproximação com a máquina ocorreu de forma gradativa, sem grandes traumas, já que esses sujeitos foram mexendo e aprendendo, conforme mencionado no Capítulo III. É fato a tendência em usuários de novos produtos iniciarem a utilização desses aparelhos sem antes haver recorrido a um treinamento específico, ou mesmo à leitura do manual; inicia-se a utilização do produto por ensaio-e-erro (Gagné, 1983). Essa tendência parece ser maior entre os estudantes. Neste particular, convém reiterar a alusão anteriormente feita a despeito do nível de conhecimento do idioma inglês. Podemos supor que, pelo fato de muitos manuais de produtos oferecidos no Brasil, se não estão totalmente em inglês, terem muitos de seus termos técnicos e comandos redigidos nesse idioma, o leitor vê-se obrigado a recorrer mais ao "mexer e aprender" do que ao estudo do manual. Tome-se, por exemplo, a dificuldade originada do fato da grande maioria de computadores comercializados no Brasil terem um teclado em que são encontradas teclas de comandos como "Enter", "Caps Lock", "Shift" e "Del", entre outras.

Essa tendência de aprendizado por ensaio-e-erro é confirmada pela opinião dos sujeitos sobre o conteúdo dos manuais, ou seja, mais da metade dos sujeitos, de ambos os grupos, considera que é mais fácil seu entendimento lendo e operando o manual ao mesmo tempo e 64% dos dois grupos considera manuais ilustrados mais fáceis de entender, novamente remetendo à suposição de que a linguagem muito técnica dos manuais é facilitada quando se pode "ver" o que os que fizeram o manual queriam dizer.

Ainda sobre manuais constatou-se que existe uma tendência de que, contrapondo-se aos consumidores, os estudantes em sua grande maioria lêem o manual, diferentemente dos consumidores que "só dão uma olhada". Poder-se-ia supor, neste caso, uma mudança de comportamento, um sinal bastante positivo no que respeita ao já mencionado desafio da alfabetização científica e tecnológica e de ajustamento a um mundo crescentemente povoado de componentes fundamentais para a vida humana de caráter científico e (ou) tecnológico.

Em relação aos valores que os sujeitos afirmaram considerar como importantes, destacaram-se, tanto entre os estudantes como entre os consumidores, os valores sociais como os mais importantes, sendo seguido pelos valores teóricos, também nos dois grupos. As diferenças apareceram no que respeita aos valores econômicos, já que estes contaram com maior apoio pelos sujeitos do grupo de consumidores, e no que concerne aos valores religiosos e políticos, que não ocorreram entre os consumidores, mas apareceram em percentual elevado entre os estudantes, quando comparados com os consumidores.

Se a exploração científica da problemática de valores e sua relativa proeminência nas pessoas teve como contribuição pioneira e de extraordinária importância os trabalhos do Estudo de Valores de Allport e colaboradores, publicado em 1931 e revisto em 1951 (VanKolck, 1981), não há dúvida de que entre os instrumentos surgidos mais recentemente com a mesma finalidade um dos que mais se destacam é o "VALS", mencionado anteriormente no Capítulo III. Criado na década de 80 pelo Stanford Research Institute, graças notadamente a contribuição de um grupo liderado por Arnold Mitchell, o "VALS" visou mais especificamente a área de Psicologia de Marketing, para fins de segmentação de mercado, orientação de publicidade e estratégia de produto (Mowen, 1987; Kotler, 1992). A Tabela 19, apresentada a seguir, compara os resultados percentuais, obtidos nesta investigação, com os resultados da pesquisa original feita nos E.U.A., realizada por Mitchell (1983).

Tabela 19 - Comparação da segmentação VALS de sujeitos da amostra brasileira com a amostra norte-americana

Categorias "VALS"

Ge

Gc

Total

amostra norte -americana

 

%

%

%

%

Sobreviventes e esperançosos

8

0

4

11

Conservadores

32

20

26

33

Emuladores

0

4

2

10

Realizadores

8

28

18

23

Eu sou eu

0

0

0

5

Experimentadores

4

16

10

7

Conscientes

24

4

14

9

Integrados

24

28

26

2

Total

100

100

100

 

 

Como se constata na tabela, existe uma diferença significativa entre a segmentação estadunidense e a amostra de sujeitos da pesquisa aqui relatada. Essa diferença é mais aparente no item "integrados", em que se esperava uma maior proximidade em relação ao percentual obtido na pesquisa realizada por Mitchell, ou seja, em torno de 2%. Porém, nesta investigação o percentual de integrados resultou bastante elevado, ou seja, 26% do total da amostra, sendo 24% no grupo de estudantes e 28% no grupo de consumidores. Os itens que estiveram dentro do esperado e se equilibraram com a investigação estadunidense são aqueles dos estudantes conservadores, que somaram 32% dos sujeitos, muito próximo ao dos sujeitos dos E.U.A. que somaram 33% da amostra daquele país, e dos consumidores realizadores, que nesta investigação contaram 28% dos sujeitos contra 23% da amostra norte-americana. Outro item que se mostrou dentro do esperado, porém superior ao índice estadunidense refere-se aos consumidores experimentadores, que provavelmente em virtude de a amostra originar-se de uma loja especializada em lançamentos em CD-Rom, resultou em alto percentual desse tipo de sujeitos. Porém, quando considerado o total dos sujeitos, esse percentual aproximou-se mais da amostra dos E.U.A., provavelmente em virtude da contraposição de poucos estudantes experimentadores.

Os resultados aqui referidos são confirmados quando confrontados com a opinião dos sujeitos sobre seu comportamento em relação às novas tecnologias. Na questão relativa a este aspecto, o número de educadores conservadores também resultou sensivelmente elevado, o que corrobora o resultado da questão sobre a segmentação VALS. Os número de estudantes tecnofóbicos resultou abaixo do esperado, equilibrando-se com o número de estudantes tecnomaníacos. Porém esses números não são confirmados pelos resultados originados da questão adaptada da escala "Computer Attitude Measure" proposta por Kay (1993).

De acordo com a questão 22 do instrumento utilizado nesta investigação, apesar de, comparativamente aos consumidores, os estudantes mostrarem-se com um nível de tecnofobia mais elevado, quando o resultado é analisado separadamente, o nível de tecnofobia é baixo, ou seja, entre os adjetivos positivos e negativos, os estudantes, na média, situaram-se em uma linha entre indiferentes e moderadamente "positivos", ao se defrontarem com um computador.

Poder-se-ia supor então que, por pertencer a uma determinada categoria profissional, neste caso a dos professores, esses sujeitos estariam defendendo as idéias de um posicionamento com base política, seguindo uma determinada linha pedagógica em moda, escolhendo roupas de maneira a serem aceitos em seu meio ou talvez, assumindo um comportamento característico de pessoas com valores conservadores.

Essa opinião é confirmada por Gates (1995), quando sugere que a lentidão das escolas dos E.U.A. em adotar novas tecnologias na educação reflete o conservadorismo de boa parte dos profissionais de educação naquele país conforme citado no Capítulo III. Gates ainda sinaliza o desconforto ou mesmo a apreensão em relação à novas tecnologias educacionais por parte de professores e administradores que, enquanto grupo, são mais velhos que o trabalhador médio.

A partir das considerações anteriores, derivadas dos dados da presente investigação, e tendo em vista os objetivos inicialmente propostos, poderão ser estabelecidas as conclusões gerais mencionadas no capítulo seguinte.

CAPÍTULO VII

CONCLUSÕES

Ao que parece, é promissor o instrumento elaborado pelo Autor e empregado na presente pesquisa, em sua versão preliminar, composto por 22 questões. Uma destas questões, a de número 22, foi traduzida e adaptada pelo Autor a partir da escala "Computer Attitude Measure" proposta por Kay (1993). As questões de número 20 e 21 foram respectivamente construídas a partir do "VALS" de Mitchell e do Estudo de Valores de Allport e col.. O instrumento merece o prosseguimento de estudos e pesquisas em nosso meio, de maneira que, em um futuro próximo, se possa contar com uma base empírica suficientemente sólida e ampla que ofereça subsídios para a generalização do seu emprego no país.

Para justificar-se igualmente a conclusão de que, no contexto brasileiro, muito há que ser feito em relação à psicologia dos valores e à sua proeminência relativa nas pessoas, assim como especificamente em relação ao 'VALS", que na observação de Mowen (1987), domina a literatura ligada à psicologia aplicada em um contexto de marketing e consumidores, é baseada em teorias genuinamente psicológicas nas áreas de motivação e desenvolvimento, notadamente na teoria de Maslow, e é, presentemente, "o método psicológico que é objeto da maior atenção por parte dos pesquisadores de psicologia do consumidor e das corporações" (pag. 239).

O exame da literatura disponível em nosso idioma revelou que pouca ou nenhuma atenção vem sendo dada entre nós ao "VALS" e à literatura científica conhecida como psicográfica, lacuna que demanda empenho dos nossos pesquisadores para que esse estado de coisa seja superado.

Em linha gerais, os resultados apresentados indicam que os estudantes apresentam níveis de tecnofobia não muito superiores aos consumidores. Porém, suas atitudes são conservadoras, enquanto grupo, em relação às novas tecnologias, o que provavelmente os leva a se manterem afastados destas.

Quanto ao primeiro objetivo, que foi detectar a existência de uma possível relação entre a formação do indivíduo e uma maior ou menor resistência às novas tecnologias, não foi possível estabelecer uma relação clara, haja vista que a grande maioria dos sujeitos dos dois grupos respondeu não ter tido contato com equipamentos tecnológicos em suas escolas, podendo-se apenas supor, com base na literatura consultada a esse respeito, que aqueles indivíduos que estiveram mais expostos à tecnologia apresentaram menor nível de tecnofobia. Deste resultado, porém, pode ser feita outra leitura, ou seja, a de que, na época em que esses sujeitos estudavam no primeiro grau, suas escolas estavam desprovidas de equipamentos tecnológicos e despreparadas para a sua utilização. Resta o questionamento de como estariam essas escolas na atualidade.

Outro ponto importante que pôde ser verificado nesta investigação diz respeito à relação entre o perfil dos sujeitos e a tecnofobia. Conforme sinalizado por estudos realizados em outros países, tudo leva a crer que essa relação é bastante sutil, não sendo possível uma identificação simples baseada apenas em respostas de auto-avaliação realizadas pelos sujeitos. É possível que estes, aparentemente, tendam a responder o que considerariam com sendo o mais adequado ou "resposta certa" para uma questão qualquer, provavelmente em virtude de um condicionamento ocasionado por muitos anos respondendo a questões de avaliação em escolas, vestibulares ou mesmo como candidatos a empregos. Dessa forma, para se conhecer de forma mais sólida a relação entre tecnofobia e o perfil dos sujeitos em nosso país, sugerimos a realização de novas pesquisas e estudos nesse sentido.

 

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 (c) Direitos Reservados: Alípio Ramos Veiga-Neto

O Prof. Dr. Alípio Ramos Veiga Neto é professor universitário de marketing, negociação e psicologia do consumidor. É professor orientador no Curso de Mestrado em Administração da Universidade de Fortaleza tendo como linhas de pesquisas: Comportamento de Consumidores, Marketing Educacional e Negociação Internacional. Doutor em Psicologia do Consumidor e Mestre em Psicologia Educacional pela PUC-Campinas tem pós-graduação em Marketing pela ESPM. É consultor de marketing educacional e desenvolvimento da pesquisa científica em universidades de vários Estados do Brasil. Conta com inúmeros artigos e publicações em periódicos científicos. É ainda diretor da indústria Gigaplast.