Alípio Ramos Veiga Neto

Áreas de atuação: Marketing, Marketing Educacional, Comportamento do Consumidor e Negócios Internacionais

Consultor de Marketing Educacional e Pesquisa Científica
Em universidades particulares de vários Estados do Brasil

Professor orientador no Mestrado em Administração
UNIFOR - Fortaleza - Ceará – Brasil

Diretor  da Industria Gigaplast
GIGAPLAST - Morungaba - São Paulo – Brasil

alipio.veiga@uol.com.br

 

TELAS E DEPRESSÃO

 (publicado em : Veiga, A. (out/1999) Telas e depressão. - Internet: http://www.escribe.com/computing/edutec/m1876.html)

 

Ela chega da escola.

Estaciona o carro e apóia a cabeça no volante. Fica nessa posição vários minutos com desanimo de sair do carro, até que imagina alguém lhe olhando, ou mesmo a possibilidade de ser assaltada. Recolhe seu material, do banco do passageiro, olha para o banco de trás para ver se sobrou alguma coisa e tenta sair do carro sem derrubar nada.

Senta no sofá. Está cansada demais para tomar banho. Pega o controle remoto da TV esperando poder se distrair um pouco. "Clic", ou seria "Zap"? A TV liga mas não presta atenção no programa, fica mentalmente repassando o dia, revive algumas cenas do trabalho em especial os momentos de estresse.

"H", "que nome mais idiota para um programa" pensa e continua, "pelo menos com aquele moleque anterior parecia mais autêntico". Lembra do tempo de criança: H-linha, K-H.

Zap, e aparece na tela o Ratinho.

Zap de novo e rapidinho para não se sentir contaminada, aparece um programa religioso. "Ai, que tortura" pensa.

Zap e uma esperança, a TV Cultura, não agüenta mais de um minuto aquele careca do Vitrine.

Zap, "PELAMORDEDEUS, a Globo está passando futebol, é demais", fica com raiva.

Zap, um gordo vestido com roupa preta comandando vários artistas de menor importância em um programa de competições, imagina se isso "dá Ibope". Deve dar pois estava no ar havia algum tempo.

Zap, um pastor. Zap, um padre. Zap o "H" novamente. Desliga a TV pensando se não deveria mandar religar a TV a cabo. Não, afinal a intenção de mandar desativar o serviço a cabo fora exatamente diminuir as horas na frente da TV.

Vai para o "home office". Liga o computador. Espera, espera, espera mais e só tem na sua frente o logotipo do Windows. Fica então lembrando as defesas da Microsoft publicadas naquela lista de discussão sobre tecnologia educacional que participa, chamada Edutec. Finalmente aparece a "Área de Trabalho" mas ainda não pode acessar nada pois estão sendo instalados os programas antivírus. "Ai que saco!" pensa.

Finalmente pode acessar a Internet. Pensa se teria algo de bom na lista Edutec, algo divertido, alguma paulada do Roberto, ferrenho defensor de idéias esquerdistas, com a costumeira resposta do Evandro, filósofo que adora uma boa discussão.

"Aguarde. Recebendo mensagem 1 de 5, 2 de 5, 3 de 5" nesse ponto o computador para, não travou apenas é mais uma daquelas mensagens gigantes de um megabyte, provavelmente alguma propaganda desagradável que fatalmente será deletada sem ler. "4 de 5, 5 de 5" pronto.

"Competências e Habilidades", um tema fascinante que vem sendo discutido na lista, não, depois ela lê, já pensou muito sobre isso o dia todo, e ainda teve aquela reunião maçante em que aquela horrorosa, metida a besta, ficou falando e fumando com a fumaça saindo pelas narinas enquanto falava, só faltava sair pelas orelhas.

"A volta da velha senhora", outro tema que lhe interessa pois discute a atitude de algumas escolas que estão voltando a adotar a linha dura, também não, já agüentou velhas demais por um dia, principalmente as fumantes.

"Domenico De Masi", isso ela gosta, lhe dá esperança de dias melhores. Resolve participar, escreve uma linha, duas e para, está sem inspiração.

Desconecta a Internet.

Liga a TV, uma senhora muito feia e desdentada está batendo em um mulato forte com o microfone, muito barulho na platéia, muito ruído eletrônico, um boneco de rato falando obscenidades, um palhaço vestido com fraldas rola pelo palco, dois negros altos vestidos de preto usando chapéus agarram a senhora e a retiram do palco. E o Ratinho grita, "vai sombra!", se dirigindo a um auxiliar que fica nos bastidores cantando a próxima atração.

"Meu Deus!" pensa. "Saio de uma lista de educação e venho para isso?" Desliga a TV.

Abre a geladeira, procura, procura, procura e desiste. Abre a despensa, felicidade, encontra uma lata de Leite Moça. Tira o miolo de uma ponta de pão, completa com leite condensado e vai se deliciando para a frente do computador. Lembra do e-mail que o Evandro publicou na lista Edutec sobre a crônica do Mário Prata "As Meninas-Moça".

"Recebendo mensagem 1 de 1". Mais "Competências".

Resolve "surfar" um pouco pela Internet. Abre o site de busca Altavista e fica esperando pela inspiração para uma palavra chave.

Desiste, não lhe ocorre nenhuma palavra. Clica no ícone "Marcadores" procura, procura e não tem nada que lhe desperte o interesse. Clica no site "eScribe", onde as mensagens da lista de discussão chegam primeiro, quer ver se tem alguma mensagem nova do Edutec que ainda não tenha sido distribuída. Nada!

Desliga o computador e resolve ir dormir. Fica enjoada com o Leite Moca, toma um copo d'água para passar. Entra no banheiro, liga o chuveiro, fecha a tampa da privada, senta e fica pensando na vida. Levanta rápido porque a conta de luz está muito alta. "Que delicia que é a água caindo no rosto!" pensa.

Deita na cama! Fica lembrando daquelas historias sobre "viagem astral". Imagina que se fosse verdade e ela pudesse fazer uma dessas viagens iria aos lugares mais exóticos possíveis, talvez para o Japão, ou para o Tibete, quem sabe para Machu-Pichu, ou então para o espaço, para a Lua. Depois lembra ter lido sobre pessoas que saíram no astral e viram espíritos, "Credo isso não quero!" pensa. "Pensando melhor seria legal, afinal que poderiam eles me fazer? Seria uma tremenda emoção ver um espirito. Quem sabe consigo sair no astral? Vou tentar". Primeiro vai relaxando as pernas, depois os braços, o corpo, tira a tensão do rosto.

Adormece.

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Atenção: Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com fatos da vida real é pura coincidência.

 

(c) Direitos Reservados: Alípio Ramos Veiga-Neto

 

O Prof. Alípio Ramos Veiga-Neto é professor de Marketing e Psicologia do Consumidor no Centro Universitário Salesiano - UNISAL e professor de pós-graduação no mestrado Ad Homines. Doutorando em Psicologia do Consumidor e Mestre em Psicologia Educacional pela PUC-Campinas tem pós-graduação em Marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing - ESPM. Possui cursos e treinamentos realizados na Austrália, Argentina e Chile. É consultor de marketing educacional e desenvolvimento da pesquisa científica em universidades de vários Estados do Brasil. Desenvolve pesquisas, realiza palestras e treinamentos em aplicação de estratégias de marketing com orientação societal.